Plano Diretor de Três Lagoas: votação ocorre nesta terça
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Plano Diretor de Três Lagoas: votação ocorre nesta terça

A votação ocorre na terça-feira após adiamento; especialistas apontam previsões e impactos ambientais

Plano diretor de Três Lagoas avança sob críticas e disputa judicial
Área Vista de Três Lagoas (Foto: Prefeitura Municipal de Três Lagoas)

Em meio a questionamentos judiciais, críticas de pesquisadores e preocupações ambientais, a votação do projeto de lei que institui o novo Plano Diretor de Três Lagoas deve ser realizada na Câmara Municipal na próxima terça-feira (23), às 18h30, em sessão extraordinária aberta ao público. Considerada o principal instrumento de planejamento urbano do município, a proposta tem sido alvo de contestações sobre o processo de elaboração, a participação popular e as alterações previstas em áreas ambientalmente protegidas.

A Câmara Municipal de Três Lagoas vota na próxima terça-feira o projeto do novo Plano Diretor sob críticas e questionamentos judiciais. A proposta tramita uma ação popular que contesta a falta de participação popular efetivada e o afastamento do conselho municipal do processo. Especialistas alertam para riscos ambientais, especialmente na APA Jupiá e no Cinturão Verde, onde áreas protegidas podem ser reduzidas. O Ministério Público manifestou-se contra a suspensão liminar da tramitação.

Uma das iniciativas para tentar barrar a tramitação foi uma ação popular auxiliada pelo advogado Lucas Alexandre de Moura Bocato. A ação não questiona o conteúdo do plano em si, mas a legalidade do processo de revisão e elaboração da proposta.

Segundo o advogado, a principal contestação envolve participação popular. Ele argumenta que a legislação municipal atribui ao Conselho Municipal da Cidade a responsabilidade de condução do processo participativo de revisão do Plano Diretor. No entanto, os membros eleitos para compor o conselho em 2025 não foram empossados ​​pela administração municipal.

“Quem deveria liderar a participação popular era o conselho, mas ele não participou do processo”, afirmou.

Outro ponto levantado na ação diz respeito às alterações previstas para a APA (Área de Proteção Ambiental) Jupiá. De acordo com Bocato, alterações em unidades públicas de conservação excluir exclusão específica e consultas próprias, o que, segundo ele, não teria ocorrido.

A ação também questionou a realização de apenas uma audiência pública durante o processo de revisão. Na avaliação do advogado, o encontro teve caráter apenas consultivo e não garantiu participação efetiva popular nem devolutiva sobre as contribuições pela sociedade.

Para Bocato, a aprovação do plano sem o esclarecimento dessas questões pode gerar insegurança jurídica para o município. “A discussão não é contra o desenvolvimento da cidade. O que se busca é segurança jurídica para a população, para os empresários e para o próprio poder público”, afirmou.

Processo – Nesta sexta-feira (19), o processo recebeu uma manifestação do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) contra o pedido de liminar para suspender a tramitação do Plano Diretor de Três Lagoas. O órgão defendeu a extinção da ação popular sem análise do mérito, por entender que ela não é o instrumento adequado para questionar preventivamente um projeto de lei em tramitação. Caso a ação seja mantida, o MPMS opinou pelo indeferimento da liminar por ausência dos requisitos legais para a concessão da medida.

A Prefeitura já apresentou defesa e sustentação de que a ação estaria tentando discutir aspectos relacionados ao mérito do projeto e atrapalhando a atuação do Poder Legislativo. O caso agora aguarda decisão de justiça

Cinturão Verde – Entre os principais pontos de preocupação está a situação do Cinturão Verde, comunidade de agricultores familiares localizada dentro da APA Jupiá. O professor Evandro Bernardes, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), acompanha o tema por meio de um projeto de extensão voltado à regularização fundiária e ao fortalecimento do acesso dos agricultores às políticas públicas.

Segundo ele, o Plano Diretor prevê alterações que avançam sobre uma área protegida. A proposta retira aproximadamente dez hectares da APA Jupiá, sem detalhar de forma clara qual será a destinação futura do espaço.

“Sabemos que no passado houve a intenção de utilizar essa área para construção de moradias populares. Existe um temor de que isso volte a ocorrer”, afirmou.

Para o pesquisador, além das implicações territoriais para os agricultores, a medida pode provocar impactos ambientais relevantes. Ele destaca que a região abriga remanescentes da Mata Atlântica, um bioma que ocupa parcela reduzida do território nacional e possui elevada importância ecológica.

Evandro também chama a atenção para problemas estruturais já enfrentados pelos bairros próximos, como dificuldades relacionadas ao saneamento básico e ao escoamento de águas pluviais.

Plano diretor de Três Lagoas avança sob críticas e disputa judicial
Plano diretor avança para dentro da APA e do Cinturão Verde em amarelo (Foto: Reprodução)

Falhas apontadas – Além das preocupações ambientais, pesquisadores de diferentes instituições têm questionados aspectos técnicos e jurídicos da proposta. Segundo Evandro, professores da UFMSda UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e do IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul), além de arquitetos, engenheiros e juristas, vêm apontando inconsistências na elaboração do texto.

Entre os questionamentos está justamente o processo de participação popular previsto no Estatuto da Cidade e na legislação municipal. “Existe legislação federal e municipal que estabelece como deve ser construída a revisão de um Plano Diretor. Há entendimentos de diversos pesquisadores de que essas instruções não foram atendidas”, afirmou.

O professor destaca que não é contrário à revisão do Plano Diretor e atualizar avanços apresentados na proposta. No entanto, defende que as questões apontadas sejam corrigidas antes da aprovação definitiva.

“Ninguém é contra o desenvolvimento. O Plano Diretor precisa ser revisado e há melhorias importantes no texto. Mas existem questões ambientais, de saúde públicamobilidade urbana e segurança climática que precisam ser observadas com mais atenção”, disse.

O projeto está em análise nas comissões da Câmara Municipal, e, segundo Evandro, ainda existe a possibilidade de vereadores membros das comissões emitirem pareceres contrários à aprovação. Nesse caso, novos prazos regimentais podem ser abertos para análise dos argumentos pelos parlamentares.

Para ele, a discussão exige cautela devido aos impactos de longo prazo que o Plano Diretor terá sobre o crescimento da cidade.

“Estamos falando de uma legislação que vai orientar o desenvolvimento urbano de Três Lagoas nos próximos anos. É uma decisão que exige análise cuidadosa e acesso adequado às informações”, afirmou.

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