PM reforça o combate à perturbação do sossego em Campo Grande
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PM reforça o combate à perturbação do sossego em Campo Grande

Além do excesso de ruído, especialistas apontam sobrecarga emocional e baixa tolerância à frustração

Com 22 registros por dia na Capital, barulho vira gatilho para conflitos graves
Polícia Militar durante a Operação Saturação (Foto: divulgação/PM)

Com cerca de 690 chamadas por perturbação do sossego registradas em maio, média de 22 ocorrências por dia, a PM (Polícia Militar) acendeu o alerta para o aumento dos conflitos relacionados ao excesso de ruído em Campo Grande. Diante da alta demanda, a corporação defende a ampliação do número de sonômetros e discute a persistência das medidas de fiscalização. Para especialistas, o problema vai muito além do volume do som. O barulho costuma ser apenas a ponta do iceberg de um acúmulo de estresse, sobrecarga emocional e dificuldades de convivência.

A Polícia Militar de Campo Grande registrou 690 chamadas por perturbação do sossego em maio, média de 22 por dia, e discute ampliar o uso de sonômetros e suportar fiscalizações. Casos extremos, como morte por som alto no Jardim Aero Rancho, revelam que conflitos vão além do barulho. Psicólogos apontam estresse e falta de empatia como causas. Em 2025, foram registradas 24.328 ocorrências no estado.

Segundo o coronel Emerson de Almeida Vicente, comandante do Policiamento Metropolitano da Polícia Militar, a corporação busca aperfeiçoar a forma de atendimento dessas ocorrências. Ele explica que nem toda denúncia de barulho configura perturbação do sossego. Em alguns casos, quando há impacto saúde públicaa situação pode ser enquadrada como crime ambiental.

A proposta é discutida por uma comissão interna da PM e por um grupo de trabalho formado por representantes de diferentes órgãos públicos. Entre as medidas em análise está o uso do sonômetro como instrumento complementar de prova durante as fiscalizações.

Caso a poluição sonora passe a ser enquadrada como crime ambiental em determinadas situações, os responsáveis ​​poderão responder não apenas na esfera criminal, mas também sofrerão sanções administrativas, como multas e até a interdição temporária de estabelecimentos.

Com 22 registros por dia na Capital, barulho vira gatilho para conflitos graves

Conforme o coronel, a intenção não é prejudicar os comerciantes, mas reduzir os impactos causados ​​pelo excesso de ruído e melhorar a qualidade de vida da população. As ocorrências se concentraram principalmente entre quinta-feira e domingo, período de maior movimento em bares, conveniências e outros estabelecimentos comerciais da Capital.

Fiscalização – Paralelamente aos estudos, a Polícia Militar intensificou ações de orientação e fiscalização em estabelecimentos comerciais. Entre as irregularidades mais comuns encontradas pelas equipes estão a falta de alvará de funcionamento e o descumprimento dos horários autorizados.

Segundo o coronel, não são raros os casos de estabelecimentos que deveriam encerrar as atividades à meia-noite, mas permanecem abertos durante a madrugada, em desacordo com as normas vigentes.

Na última sexta-feira (12), a Polícia Militar realizou uma Operação Saturação na região da Lagoa. Com foco preventivo, a ação incluiu fiscalizações em cerca de 10 estabelecimentos, entre bares, tabacarias, conveniências e comércios similares. Durante as visitas, as equipes realizaram verificações documentais, orientaram proprietários e promoveram abordagens externas à manutenção da ordem pública e à prevenção de delitos.

Conflitos vão além do barulho – As reclamações de perturbação do sossego não se restringem a festas, som altas ou algazarras. Ruídos provocados por motocicletas, escapamentos adulterados, buzinas e outras situações do cotidiano também figuram entre os principais motivos de desentendimentos entre moradores e acionamentos da Polícia Militar.

Em alguns casos, o incômodo causado pelo barulho acaba sendo desencadeado para conflitos mais graves. Um exemplo ocorreu no início deste mês, quando um grupo de motoboys derrubou a porta de residência e danificou veículo na Vila Sobrinho após discussão durante a entrega de um lanche. Segundo o boletim de ocorrência, o desentendimento começou quando o entregador utilizou repetidamente a buzina da motocicleta para chamar os moradores da casa.

Casos extremos também chegaram ao Judiciário. No mês passado, os primos Paulo Henrique Pereira da Cruz Nascimento e Victor Manoel da Silva dos Santos foram condenados a 14 anos de prisão, em regime fechado, pela morte de Claudionor Lopes dos Santos, de 67 anos. Em 2023, a vítima foi espancada com barra de ferro após discussão motivada por som alto no Jardim Aero Rancho.

Para a psicóloga e terapeuta cognitivo-comportamental Mayara Crespo, episódios como esse mostram que o problema nem sempre é apenas no barulho. Segundo ela, situações aparentemente simples costumam funcionar como gatilhos para emoções acumuladas ao longo do tempo.

“Muitas vezes, a buzina, o som alto ou um desentendimento com o vizinho são apenas a última gota que faz o copor. O problema não é apenas o barulho, mas o acúmulo de estresse, sobrecarga emocional e dificuldades de comunicação que as pessoas carregam no dia a dia”, afirma.

O especialista explica que uma rotina marcada por excesso de estímulos, cobranças constantes e pouco tempo para descanso tem reduzido a tolerância das pessoas às frustrações. Com isso, situações corriqueiras acabam sendo interpretadas como ataques pessoais, dificultando o diálogo e aumentando o risco de reações impulsivas.

Para a psicóloga Laiza Somell, que atua com abordagem humanista e Gestalt-terapia, o aumento dos conflitos também está relacionado às mudanças nas formas de convivência e ao enfraquecimento dos laços comunitários. Segundo ela, o avanço das redes sociais e a redução do convívio entre vizinhos desenvolvidos para a perda de habilidades de comunicação, empatia e sociabilidade.

“As pessoas vivem cada vez mais inseridas nas redes sociais e menos nas relações presenciais. Isso diz respeito à capacidade de interação, de empatia e até de lidar com as próprias emoções. Há uma dificuldade maior em tolerar frustrações e compreender o outro”, afirma.

Laiza também destaca que questões relacionadas à segurança pública alteram a dinâmica dos bairros ao longo dos anos. Se antes a vizinhança era vista como uma extensão do ambiente familiar, hoje muitas pessoas permanecem mais tempo dentro de casa e mantenha pouco contato com quem mora ao redor.

Com 22 registros por dia na Capital, barulho vira gatilho para conflitos graves
Corpo de Claudionor perto do portão caído e carro com vidro quebrado (Foto: processo de reprodução)

Mais de 24 mil ocorrências em um ano – Dados do Ciops (Centro Integrado de Operações de Segurança), vinculado à Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), apontam que a Polícia Militar atendeu 24.328 ocorrências de perturbação do sossego em 2025. Os bairros com maior número de registros foram Nova Lima (1.087), Caiobá (982), Aero Rancho (940), Centro (887), Jardim Noroeste (822), Moreninhas (638), Guanandi (558), Centro-Oeste (539), Los Angeles (537) e São Conrado (519).

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