Professora cria tabela periódica tátil para aluno cego em MS
Ao chegar a uma escola Estadual na região periférica de Campo Grande, a professora de Química Camila Calácio, de 28 anos, se deparou com uma realidade inesperada. Sem ar-condicionado, com turmas numerosas e um histórico de vulnerabilidade social, o cotidiano escolar a obriga a reconstruir sua própria forma de ensinar e de compreender o papel da educação.
A professora de Química Camila Calácio, de 28 anos, transformou desafios em projetos inovadores em uma escola pública periférica de Campo Grande, como uma geladeira literária e uma tabela periódica tátil para estudantes com deficiência visual. Sua trajetória integra os 10 anos do Ensina Brasil no Mato Grosso do Sul, programa que formou 105 educadores e impactou 34 mil estudantes no Estado e mais de 330 mil em cinco estados brasileiros.
A partir desse cenário, Camila passou a transformar desafios em projetos dentro da escola. Foi neste contexto que surgiu a “geladeira literária” e, sobretudo, iniciativas de inclusão voltadas para estudantes com deficiência visual — experiências que também ajudam a contar a trajetória do Ensina Brasil em Mato Grosso do Sul, organização que completa 10 anos de atuação no Estado.
Nesse período, o programa ajudou a formar e apoiar 105 jovens educadores, que hoje fazem parte de uma rede voltada para transformar a educação público a partir da sala de aula e de diferentes espaços de liderança. No Estado, uma organização soma 34 mil estudantes impactados diretamente por suas iniciativas, em um movimento que também já alcançou mais de 330 mil alunos em cinco estados brasileiros.
Projetos e propósito – Natural de Franca (SP), Camila é bacharel em Química pela Universidade Federal de Viçosa. Antes de ingressar na educação pública, estava concluindo o mestrado e estudou no comércio de roupas. Sem formação inicial em licenciatura, chegou ao magistério por um percurso que já incluiu a paixão por projetos e experiências na empresa júnior da faculdade.
O contato com o Ensina Brasil veio por meio de uma veterana da universidade que já havia participado do programa em Mato Grosso do Sul. As publicações nas redes sociais e a identificação com trabalhos sociais e educacionais despertaram seu interesse.
“Eu sempre gostei muito de trabalhar com projetos”, relatou. A decisão de adesão no programa veio após o término do mestrado, movida também por um sonho de infância de ser professora.
Em 2024, Camila chegou a Campo Grande e encontrou na rede após o ciclo inicial do programa, onde encontrou o que define como uma cidade semelhante ao interior paulista de onde veio.
Choque com a realidade Ao ser designado para a escolaa primeira ocorrência foi de estranhamento. Como ela relata, a busca pelo mesmo nome da instituição na internet revelou um histórico quase exclusivo de notícias sobre brigas e situações de violência.
A adaptação também passou pelas condições estruturais, com salas sem climatização, calor intenso e turmas numerosas. Mas o impacto mais profundo veio dos relatos dos próprios estudantes, que expuseram uma realidade distante daquela vívida pela professora em sua cidade de origem. Segundo ela, Franca tem 100% de saneamento básico e asfalto.
“Eu ouvia alunos dizendo que não podia ir à escola porque a rua alagou”, lembra. A diferença de contexto levou a ressignificar sua prática. “Esse campinho foi uma escola. Ensinar aqui me fez conseguir dar aula em qualquer lugar.”
Uma geladeira – Entre os projetos desenvolvidos, a chamada “geladeira literária” se tornou um dos mais conhecidos. A ideia surgiu em 2025, após a concessão do uso de celulares na escola ea preocupação com o que os estudantes fariam no intervalo.
Com uma geladeira inutilizada em casa, Camila propôs a criação de um espaço de leitura coletiva. A iniciativa ganhou forma com o apoio de colegas, estudantes e parceiros da comunidade. Os livros foram arrecadados, a estrutura foi grafitada por um artista local e o projeto ainda conto com apoio para a realização de um evento de apresentação com a participação da escola.
A proposta era permitir que os estudantes tivessem acesso livre à leitura, sem regras de empréstimo. “A ideia era que fosse algo orgânico”, explica. Segundo ela, embora não tenha permanente na escola para acompanhar os resultados a longo prazo, veja maior interesse dos alunos pelos livros e pela troca entre eles.
Tabela periódica – Se a literatura literária marcou a dimensão coletiva da escolafoi na relação com um estudante com deficiência visual que Camila encontrou o que descreve como seu maior aprendizado como professora. José, aluno do ensino médio, foi seu primeiro estudante cego em sala de aula. Diante do desafio de ensinar Química sem referências visuais tradicionais, a professora precisou reinventar completamente sua prática.
“Como fazer o José aprender Química?”, relembra.
A resposta veio da criação de uma tabela periódica tátil, construída com miçangas e materiais simples, que permitiam representar famílias químicas por meio do tato. Ó estudante participou diretamente do processo, escrevendo legendas em braille com reglete dentro da sala de aula.
A experiência evoluiu para outras adaptações, permitindo que José acompanhe conteúdos como distribuição eletrônica em igualdade com os colegas. O impacto foi imediato na dinâmica da turma e na própria percepção da professora sobre inclusão.
“Ele conseguiu acompanhar como os demais estudantes”, afirma Camila, que passou a implementar práticas acessíveis no planejamento das aulas.
O projeto ganhou visibilidade interna no programa Ensina Brasil e foi apresentado em um encontro da organização, com a participação do próprio estudante.
Ensina Brasil Camila chegou à Ensina Brasil sem licenciatura, formação que foi construída ao longo do próprio exercício docente. O programa, segundo ela, foi decisivo para estruturar sua atuação em sala de aula, especialmente no planejamento pedagógico e na compreensão de teorias educacionais.
O processo formativo da Ensina Brasil incluiu acompanhamento contínuo, mentorias e formações sobre liderança, diversidade, inclusão e gestão de projetos. Também envolve o aprendizado de que o erro faz parte da prática docente.
Programa – Presente em 63 países por meio de uma rede internacional, a Ensina Brasil oferece uma experiência de desenvolvimento profissional voltada para recém-formados que desejam atuar em escolas públicas, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. No Brasil, 70% dos participantes possuem formação em áreas como engenharia, biologia, administração, direito e relações internacionais.
Durante dois anos, os chamados estagiários recebem acompanhamento pedagógico, formações continuadas e orientação de consultores especializados. A proposta inclui conteúdos sobre ensino e aprendizagem, mas também liderança, diversidade, inclusão, inovação, gestão de projetos e bem-estar profissional. Após a conclusão do período de estágio no programa, Camila decidiu permanecer em Campo Grande e hoje é concursada na rede pública.
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